A Herança dos Rituais de Luto da Era Vitoriana
É importante conhecê-los. Eles são de suma importância para quem pretende estudar sobre a morte. Parte desses rituais nós herdamos. Nossa fonte foi o Canal Cafezinho Francês, do YouTube, ele é apresentado pela pesquisadora Flávia Ribeiro, que tem como fonte os livros produzidos pelas funerárias inglesas no século XIX, que eram distribuídos gratuitamente à população da época, além de revistas especializadas no assunto.
A rainha Vitória reinou no Reino Unido de 1837 a 1901, e apesar do grande desenvolvimento científico e econômico impulsionados pela Revolução Industrial, havia nesses países uma alta taxa de mortalidade. A população vivia em torno de 40 a 45 anos, havia altas taxas de mortalidade infantil, guerras e ainda não existia o antibiótico para tratar as doenças. Para conviver melhor com essa triste realidade, o povo passou a encarar e tratar a morte com um ritual especial, algo como um momento solene. Teremos, então, elaborados rituais fúnebres.
1 – Fotos Post Mortem – as fotografias já haviam sido inventadas, mas eram muito caras. Sendo assim, quando uma pessoa morria, os membros da família e amigos se juntavam para pagar uma fotografia do falecido, nesse caso esse seria o único registro fotográfico da existência daquela pessoa. Primeiramente fotografavam o morto no caixão, mas isso era algo muito mórbido e triste. Então, o rito foi evoluindo. Os familiares passaram a maquiar o defunto e fotografá-lo como se estivesse vivo, sentado com os outros parentes, de olhos abertos, até em pé, pois havia equipamentos para manter o cadáver em pé;
2 – O Velório – a maioria era feita em casa. Nele, o morto nunca podia ficar só, isso porque ao ficar acompanhado, acreditava-se que ele teria uma passagem mais tranquila para o céu. Também em função dos ratos que eram muitos e poderiam roer o cadáver. Era feito um convite impresso para convidar as pessoas ao velório. Depois do enterro, havia um convite para os presentes a um almoço ou jantar, no final serviam-se os biscoitinhos de luto, que vinham envoltos em um papel com uma oração impressa. O defunto deveria ser retirado do local do velório pela cabeça, pois se fosse pelos pés, o povo acreditava que ele voltaria para levar outro familiar;
3 – As Flores – naquela época não havia automóveis, nem aviões, então os parentes e amigos demoravam para se deslocar e se despedir dos entes queridos. Os funerais podiam durar dias. Sendo assim, era necessário usar muito arsênico para embalsamar os corpos, então, para evitar o mal cheiro dessas substâncias, as pessoas traziam as flores;
4 – Os frascos de Lágrimas – havia frascos de vidros onde os amigos e parentes do falecido guardavam suas lágrimas pelo morto; e presenteavam a família dele, era um sinal de como ele era querido e amado. A origem desses frascos remonta à antiguidade romana e grega;
5 – Os cemitérios – os túmulos eram muito bem-elaborados, contando com esculturas, e a arquitetura gótica está presente nesses cemitérios. O cemitério na Europa não é somente o local de enterrar os mortos, mas também de passeios e visitações, inclusive tem tour onde os guias contam as histórias das personalidades que ali estão sepultadas;
6 – Os sininhos – na Inglaterra, se tinha o hábito de enterrar os mortos com sininhos, pois era grande o medo de ser enterrado vivo. A medicina era muito arcaica, não havia equipamentos para se diferenciar um estado de coma de um óbito. O risco era real. Os sininhos serviam para que caso a pessoa despertasse no caixão, pudesse tocar o sino e ser resgatada. Porém, não há registros de alguém que tenha sido resgatado. Acredito que esse método era ineficiente;
7 – Cabelos – as pessoas tinham o hábito de cortar pedaços de cabelos dos falecidos, para confeccionar pulseiras, joias, e quanto maior fosse o poder aquisitivo, mais requintadas eram essas joias;
8 – O Luto para os cônjuges – para as mulheres o luto tinha três etapas, que duravam ao todo três anos. A primeira etapa era o luto profundo – onde a mulher tinha que se vestir de preto e usar o véu durante um ano. A segunda era o segundo luto, em que a mulher já poderia tirar o véu, mas deveria continuar a se vestir de preto. A última etapa era o último luto, onde a mulher poderia flexibilizar nas roupas, usando outras cores junto com o preto. Depois dessas etapas é que a viúva ia ser observada pela família e pela a igreja, que analisariam se ela poderia se casar novamente;
O homem não seguia essas regras, poderia casar imediatamente se desejasse, isso porque geralmente eles tinham muitos filhos pequenos e precisavam com urgência de uma mulher para criar as crianças. No casamento os noivos poderiam usar as roupas que quisessem. No dia seguinte o marido deveria usar um terno preto em sinal de luto, e a esposa deveria seguir as mesmas regras de luto das viúvas;
9 – Luto dos filhos – se eles tivessem menos de 12 anos, poderiam se vestir normalmente, e no inverno vestiriam preto e no verão cinza. Se eles tivessem acima de 12 anos deveriam seguir as mesmas regras dos adultos;
10 – Cobrir o brilho – havia o hábito de cobrir todos os objetos que brilhavam na casa, pois o brilho é considerado sinônimo de alegria, nesse caso não cobrir seria um desrespeito ao morto. Em relação aos espelhos, tinha-se um motivo especial para cobri-los, pois se acreditava que ao olhar para o espelho o morto poderia aparecer para levar as pessoas da casa.
Conversando com as pessoas mais velhas, eu soube que alguns desses rituais nós herdamos, no qual podemos citar: cobrir espelhos e retirar o defunto de casa pela cabeça. Os mais presentes, que persistem até hoje, são sem dúvida as flores e o vestir preto.
Adriano Pinheiro
Professor de História
Publicado em O Imparcial em 30 -10 - 24
