Os 100 Anos de Um Colosso da Guerra-Fria
No último dia 27 de maio, chegou aos 100 anos uma das figuras mais controversas e importantes da política internacional do século XX: Henry Kissinger. Arquiteto da paz mundial para uns, grande criminoso de guerra para outros – afinal, quem é esse polêmico diplomata? Tentaremos expor brevemente nas linhas abaixo.
Apesar das divergências em torno do seu nome, críticos e defensores convergem em dois pontos: ele mudou a forma de os EUA se relacionarem com o mundo e os rumos da guerra fria, colaborando para a derrocada do socialismo e o estabelecimento de uma nova ordem mundial.
Alemão de origem judaica, seu nome de nascimento era Heinz Alfred Kissinger. Nasceu em 27 de maio de 1923 em Furth, cidade alemã da qual, em decorrência da política antissemítica nazista, teve que se refugiar em 1938, quando tinha apenas 15 anos. Com seus pais, mudou-se então para Nova Iorque, onde passou a se chamar Henry, conservando seu sobrenome original. Estudou Economia em Harvard, conseguindo, em 1943, a cidadania norte-americana.
Nesse mesmo ano, voltou à Alemanha, onde, na Segunda Guerra Mundial, combateu pelo exército americano contra os nazistas. Em 1947, estudou filosofia em Harvard, doutorando-se em 1957 em Administração na mesma universidade e tornando-se professor da renomada instituição. Sua tese foi publicada em forma de livro sob o título “O mundo restaurado”, no qual ele trata da reconfiguração europeia após a era napoleônica.
Seu ingresso na carreira política ocorreu sob os auspícios de Nelson Rockfeller, poderoso magnata dos EUA. Kissinger trabalhara no grupo empresarial Rockfeller e assessorara seu patrão em sua pré-candidatura à presidência americana em 1968. Nelson Rockfeller, contudo, perdeu para Richard Nixon a indicação para concorrer à Casa Branca pelo Partido Republicano. Nixon venceu a eleição e Kissinger estrategicamente se aproximou dele. Em 1969, chegou ao poder como assessor de Nixon para assuntos de segurança nacional.
No exercício do cargo, sua atuação frente à guerra do Vietnã, na qual os EUA estavam envolvidos desde 1964, o credenciou a ocupar, em 1973, o cargo de Secretário de Estado. Ainda como assessor do governo Nixon, Kissinger arquitetou o bombardeio ao Camboja e estreitou as relações americanas com a China, culminando, em 1972, com a visita do presidente Richard Nixon àquela nação e, em seguida, à URSS. Foi a primeira vez que um presidente dos EUA visitou Moscou, onde assinou tratados de redução de armamento.
Com o escândalo de Watergate, no qual o presidente Nixon foi acusado de envolvimento em espionagem aos democratas e sua renúncia se tornou cada vez mais inevitável, ele então nomeou Kissinger como secretário de Estado para que a nação não perdesse as conquistas na política externa.
A verdade é que Kissinger tinha muita influência no governo Nixon. Tanto assim que, para os críticos, ele era um copresidente, e foi favorável ao bombardeio de Hanói em 1972, um dos mais duros da Guerra do Vietnã, ocasião em que houve milhares de mortes e fotos chocantes de crianças sendo queimadas entraram para a história. Contudo, décadas depois, para alimentar mais a polêmica, gravações revelaram que Nixon estava decidido a usar a bomba atômica no Vietnã, e Kissinger o convenceu do contrário, evitando assim mais mortes. Ele conduziu as negociações do cessar fogo no Vietnã em 1973, o que o levou a ser laureado, na ocasião, com o prêmio Nobel da Paz. Contudo a polêmica sempre marcou a vida desse diplomata. Em 1975, foi acusado por oficiais militares de maquiar mapas e planilhas de custos durante a guerra do Vietnã. Foi bem assim a acusação: Em 1969, Kissinger defendia o bombardeio do Camboja, por acreditar que era uma rota de abastecimento de armas e mantimentos para o Vietnã do Norte, mas para isso precisava da aprovação do Congresso, o que era praticamente impossível naquele momento. Tudo tinha que ser prestado conta com parlamento. De cada litro de combustível a bomba lançada. Então Kissinger mandava fazer um mapa de bombardeio ao Vietnã do Norte apresentava aos seus superiores, depois mandava fazer outro para bombardear o Camboja, depois de feito o bombardeio, os seus comparsas queimavam o mapa e prestavam contas com o mapa original. Com isso o Camboja foi bombardeado secretamente durante 1969 a 1973, segundo fonte do historiador Greg Grandin, na obra “A sombra de Kissinger”. Porém, o Congresso americano inocentou Kissinger em 1975, a essas alturas estavam todos indignados com a derrota dos EUA, no conflito, isso favoreceu Kissinger, muitos achavam que se tivessem dado mais apoio a ele nesse sentido não teriam perdido a guerra.
Outra proeza de Kissinger ocorreu no Oriente Médio, durante a guerra do Yom Kippur (dia do perdão judaico), quando Israel foi atacado de surpresa pela Síria e pelo Egito. Ele conseguiu fazer sentarem-se face a face líderes árabes e israelenses pela primeira vez, para começar uma negociação de paz após 1948 (ano da criação do estado judaico).
Em contrapartida, na América Latina, gravações e outros documentos comprovam que ele ajudou a desestabilizar economicamente o Chile para derrubar o presidente socialista Salvador Allende. Esteve também envolvido na implantação das ditaduras do cone sul. Com a renúncia de Nixon em 1974, Kissinger continuou no cargo durante todo o governo Ford até janeiro de 1977.
Agora vamos sair um pouco dos EUA. Em relação ao Brasil, sua primeira visita foi de caráter pessoal. Ele era um aficionado por futebol e esteve no Brasil pela primeira vez em 1962 para acompanhar as comemorações do nosso bicampeonato na Copa do Chile. Em 1976, retornou ao nosso país como secretário de Estado, para tratar de assuntos comerciais.
Voltou muitas vezes depois, inclusive em 1984, quando assessorou o presidente João Batista Figueiredo no trato da abertura política de nosso país, entre outros serviços de consultoria, atividade que exerceu desde que deixou o poder. Em 2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso quis condecorá-lo com a ordem do Cruzeiro do Sul, mas o líder do MST, João Pedro Stédile, ameaçou fazer um protesto. Por precaução ou receio, o presidente brasileiro recuou da ideia.
Sobre sua produção acadêmica mais recente, podemos mencionar: “Sobre a China” (2011), um relato da história daquele país e suas experiências para aproximá-lo dos EUA; “Ordem mundial” (2014), em que ele questiona se de fato o mundo teve em algum momento da história uma ordem global; e “A era da inteligência artificial” (2021), escrito em parceria Eric Schmidt e Daniel Huttenlocher, texto em que os autores analisam os prodígios dessa inovação e seus impactos para o futuro.
Bem, mais importante do que julgar a História é preservá-la. Certamente Kissinger tem a sua preservada. Uns o amam, outros o odeiam e há aqueles que lhe são indiferentes. Suas ideias, contudo, tiveram impactos globais inegáveis. Convém lembrar que o cargo mais elevado na administração pública dos EUA que ele ocupou, o de secretário de estado, foi por um período de quatro anos ( 1973, 1974, 1975 e 1976). Contudo a sua atuação na política externa começou antes desse período, em 1969, na condição de assessor de segurança nacional do governo Nixon, e se estendeu décadas depois. Assessorou vários presidentes norte-americanos, estava sempre presente nas comitivas deles em viagens internacionais. Seu campo de atuação se estendeu também no setor privado, onde tem uma empresa de consultoria internacional que presta serviços para empresários do mundo todo. Com 100 anos de idade, ele permanece firme, escrevendo artigos, dando palestras, aconselhando líderes... Certamente Kissinger é um gigante da guerra fria.
Adriano Pinheiro
Professor de História
Publicado no jornal “O Imparcial” em 31 – 05 – 23
