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Jimmy Carter: Os 100 anos do mais longevo ex-presidente dos EUA

Neste último dia 01 de outubro, completou 100 anos o ex-presidente norte-americano mais longevo, James Earl Carter, mais conhecido como Jimmy Carter. Nascido em 1 de outubro de 1924, na Geórgia, foi um agricultor de amendoim, que seguiu carreira na Marinha e, posteriormente, como político, tendo mandatos de governador pela Geórgia, senador e presidente da república entre 1977 e 1981, respectivamente. Foi casado com Rosalyn Carter durante 77 anos, falecida em 2023. Como toda carreira política, ele se viu em polêmicas e contradições, contudo, teve muitos feitos na área da diplomacia e dos direitos humanos, que tornaram-no referência em negociações de paz, mesmo depois de sua saída da Casa Branca, culminando com a sua aquisição de um prêmio Nobel da Paz, em 2002.

Sobre o período que estava no poder político, ele foi muito movimentado. Na campanha para o governo da Geórgia, foi acusado de declarar em comício que não precisava dos votos dos negros para ganhar a eleição. Se isso foi verdade, leva-me a crer que tratava-se de um estratagema para vencer as eleições, pois ele concorria em um Estado muito conservador, e era do partido Democrata, considerado o de tendências liberais, ou seja, queria conquistar esses votos. Pois, toda a sua trajetória política foi marcada pela luta e implementação dos direitos civis e políticas em prol das minorias, e veio a ser amigo de lideranças negras, como Nelson Mandela e o Bispo Desmond Tutu.

Na presidência, o seu governo pôde comemorar a redução da taxa de desemprego e do déficit orçamentário; por outro lado, tivemos uma alta inflacionária e aumento nos custos da energia. Mas vamos nos centrar nos fatos de maior relevância no governo dele. Primeiro o acordo de Camp David, de 1979. Esse acordo, intermediado pelo presidente Carter, foi feito entre Israel e Egito, onde os israelenses se retiraram da Península do Sinai e foi criada a autonomia para os territórios palestinos. O nome “Camp David”, faz uma referência à residência de verão dos presidentes dos EUA, onde se passaram as negociações.

O segundo acontecimento relevante foi a crise dos reféns americanos na embaixada de Teerã. O fato ocorreu em 1979, no seio da Revolução Islâmica, em que estudantes revolucionários invadiram a embaixada e fizeram os funcionários como reféns. Ao todo foram 52, onde eles exigiram a extradição do xá Reza Pahlavi, que fugiu ao Irã depois da ascensão do Aiatolá Khomeini, e fazia um tratamento de saúde nos EUA. O conflito foi longo, se estendendo por 444 dias. Carter rompeu relações diplomáticas com o Irã, e impôs sanções econômicas. Mandou quatro helicópteros para resgatar os reféns, mas, devido às tempestades de areia, três pararam de funcionar e um caiu. Khomeini disse que foi um castigo “divino”.

Anos depois, em entrevista, Carter afirmou, bem-humorado, que o seu maior arrependimento, nesse caso, foi não ter enviado um quinto helicóptero. No meio dessa confusão, em julho de 1980, o xá Reza Pahlavi morreu no Egito, e Khomeini firmou um acordo com os EUA, onde eles libertariam os reféns em troca da devolução dos bens do xá ao Irã, e concederiam a suspensão das sanções econômicas ao seu país. A soltura dos reféns coincide com a posse do novo presidente.

No campo dos direitos humanos, Carter abraçou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Em plena Guerra-Fria, para denunciar os crimes dos soviéticos, ele antes reviu a sua política externa em relação à América do Sul, que passava pelo período de ditaduras, sendo que tal medida contribuiu com a abertura política no Brasil, podendo citar a Lei de Anistia, de 1979, que trouxe de volta os exilados e libertou os presos políticos. Ele buscava com isso coerência na defesa dos direitos humanos.

Jimmy Carter perdeu a sua reeleição para o Republicano Ronald Reagan, devido à alta na inflação e ao seu desgaste na condução na crise dos reféns na embaixada em Teerã. O perfil do seu adversário também ajudou nessa derrota. Enquanto Carter era bonachão, risonho, gentil e cordato, o Reagan foi um ator que encarnou o cowboy, símbolo do herói americano. Ele era durão, machão, que ia resolver os problemas da nação na força, resgatando o orgulho do cidadão americano de ser a grande potência global. Isso nutria o eleitor de confiança. Os discursos dele eram bonitos e sarcásticos. Ele ironizou Carter em um debate na TV, questionando: “É difícil acreditar em homem que diz que adora tomar banho gelado de manhã cedo”.

Depois de deixar a presidência, Jimmy Carter fundou o “Carter Center”, uma organização sem fins lucrativos, que tem o objetivo de lutar pela promoção da paz, democracia e direitos humanos pelo mundo. Foi sempre uma ponte entre os EUA e seus inimigos, em que Fidel Castro chegou a afirmar que Carter foi o único presidente americano que não hostilizou Cuba. Pela sua atuação em defesa das causas humanitárias, ele foi laureado com o prêmio Nobel da Paz, em 2002. Como todo político, os americanos podem gostar ou não de Carter, mas uma coisa é certa: ele foi um presidente fora dos padrões que os EUA costumam ter, e o seu legado para a história é indelével!

Adriano Pinheiro

Professor de História

Publicado no jornal O Imparcial em 03-10-24