A Violência Contra a Mulher
A agressividade e a bravura não são e nunca foram atributos exclusivos aos homens. Podemos citar várias personalidades históricas femininas que assumiram o papel de “sexo forte”: Cleópatra, Joana D’Arc, Rainha Elizabeth, Rainha Vitória, Maria Felipa, Maria Bonita, Maria Quitéria, Bárbara de Alencar, Golda Meir, Margareth Thatcher, Olga Benário... poderíamos citar muitas, mas vamos nos restringir ao Brasil, começando por nossas índias. Na obra As mulheres do Brasil: A História não contada, do historiador Paulo Rezzutti, temos a tribo das amazonas, que deram origem ao nome do estado. Era uma tribo só de mulheres guerreiras, e não havia homens lá. Elas lutavam, trabalhavam, eram altas e bonitas. Se encontravam com as tribos onde havia homens uma ou duas vezes por ano, para ter relações sexuais. Quando nasciam os bebês do sexo masculino, elas davam para os índios ou matavam.
Mais tarde, já no século XIX, podemos citar as matriarcas nordestinas. Pesquisas sociológicas mostram que nessa região temos as mulheres mais bravas do Brasil. Essas matriarcas eram as chefes de família de fato, e os homens fingiam que mandavam, algo de fachada. Segundo alguns historiadores, elas batiam de toalhas molhadas nos maridos, para não deixar marcas. O maior expoente entre essas matriarcas foi Bárbara de Alencar, que chegou até a participar de movimentos republicanos.
Ao longo de toda a história de opressão e negação de direitos que as mulheres sofreram por parte dos homens, elas, de certa forma, sempre encontraram mecanismos de defesa e formas de resistência. Certa vez, ouvi o relato de uma senhora, que aparentava ter uns 70 anos, onde ela disse que todas as vezes que discutia com o esposo, ele a ameaçava surrá-la. Até que um dia ela pegou uma tesoura, encostou no umbigo dele e disse: “Bate! Bate! Bate que eu te chamo de homem!”. Nunca mais ele a ameaçou, e não foi preciso divórcio.
Havia mulheres que não sabiam se defender sozinhas, e não tinham policiais suficientes para protegê-las. Elas recorriam aos seus pais, tios, irmãos, primos, ou, no último caso, aos amigos, e eles faziam a “justiça com as próprias mãos”. Hoje, dificilmente um homem vai querer se envolver em confusão alheia, e se ele for bater em um marido ou namorado violento, pode receber de volta uma facada ou um tiro. O mundo está mais perigoso. Certo é que hoje sobrou tudo para a justiça. Ela está afogada de processos, sem agentes públicos suficientes para cumprir a lei, e às vezes ainda é vítima de trotes; como foi o caso noticiado pela imprensa de uma atriz famosa que tinha uma medida protetiva contra o ex-marido, e ao chegar a um restaurante onde ele se encontrava com amigos, telefonou para a patrulha Maria da Penha, alegando que estava sendo perseguida, e o homem teve que sair correndo de lá, e todos que estavam no local vaiaram a atriz. Tudo isso dificulta ainda mais o trabalho das autoridades.
A justiça tem feito trabalhos interessantes para solucionar esse problema social. Temos penas alternativas para os condenados, casas de abrigos para mulheres, cursos para homens ministrados por psicólogos, para que não haja reincidência no crime, palestras em escolas... Porém, o grande gargalo é a necessidade de um quadro muito maior de servidores públicos para atuar nessa área. Vejo duas medidas mais tangíveis para reverter esse cenário. Primeiro são as campanhas educativas, através dos meios de comunicação e de projetos nas escolas. A segunda é quebrar esse estigma cultural de que a mulher tem que ser indefesa. Ela não precisa necessariamente de um homem para defendê-la. As mulheres poderiam fazer artes marciais, ou poderiam ter leis para conceder o direito de porte de arma de fogo àquelas que estivessem sob ameaça. Isso seria somente para as mulheres que estivessem dispostas a aderir à autodefesa, o que aliviaria o trabalho das autoridades.
Muitos críticos alegam que essas minhas últimas propostas são a transferência de uma responsabilidade, que é do Estado para o indivíduo. Contudo, se formos esperar cada bairro ter uma Delegacia de Mulher, uma casa de abrigo e policiais para fazer esse serviço, muitas mulheres irão tombar. A solução para este problema está nas mãos de toda a sociedade.
Adriano Pinheiro
Professor de História
Publicado em “O Imparcial” em 16-02-24
