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Jazz: Um estilo musical atemporal que se irradiou pelo mundo

Há pouco tempo, ocorreu em nossa ilha um festival de jazz, que tem edição anual. Achei por bem pesquisar sobre esse estilo musical, que rompe a tendência de massificação cultural difundida pelos meios de comunicação. A diversidade combina melhor com um país como nosso, fruto da fusão de muitos povos.

Começaremos pela origem do termo “jazz”, que, para a maioria dos pesquisadores, é incerta. Pode ser do francês jaser, que significa “falar da vida alheia”, ou “jogar conversa fora”. Pode ser também do francês jeux, que significa “jogos” ou “brincadeiras”. Outros dizem que começou com um músico chamado Charles, cujo nome abreviado ficou Chas - o jass. Há quem diga que jazz é abreviação de jazzmin, ou jasmim, a fragrância predileta das meretrizes de New Orleans. Enfim, ele nasceu em New Orleans, tendo como berço a cultura afro-americana. O grande músico e compositor de jazz Duke Ellington certa vez disse: “O jazz é a música clássica dos negros.” Desde os tempos da escravidão, os escravos estadunidenses, entoavam canções coletivas nos campos de tabaco, algodão, açúcar. Após a abolição, eles se aproximaram dos instrumentos ocidentais. Somado a isso temos o desenvolvimento das músicas folclóricas, aí surgiram ritmos como o ragtime e o blues. A combinação de tudo isso deu origem ao jazz. É um estilo tão rico que apresenta várias vertentes como swing, big bands, bebop, hard bop, cool jazz, soul jazz, free jazz, fusion jazz e jazz latino.

Para descrevê-las, as linhas deste artigo seriam insuficientes - bem como o jornal todo. Focaremos nos aspectos mais relevantes. O jazz é uma música atemporal pois se apoia em instrumentos clássicos: o piano vai ser sempre piano, bem como o sax, contrabaixo, violoncelo e a bateria. Confesso que já ouvi gravações da década de 1950 que nos fazem pensar que foram feitas neste instante. Isso é maravilhoso! Foi o estilo musical criado pelos negros que conquistou a classe média e a elite norte-americana, em um tempo que haviam leis de segregação racial. Em determinadas casas de espetáculo, a plateia era separada entre brancos e negros. O jazz foi importante no combate ao racismo e na ascensão social de músicos negros talentosos.

Bem, todo estilo musical se faz com músicos. Entre os mais importantes para o jazz, podemos citar: Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, John Coltrane, Count Basie, Dizzy Gillespie, Miles Davis, Dave Brubeck, Chet Baker, Stan Getz, Gerry Mulligan, Benny Goodman, Coleman Hawkins, entre outros.

Gostaria de fazer uns esclarecimentos com base na obra “Jazz: das raízes ao pós -bop” de autoria de Augusto Pellegrini. Para um bom conhecedor do jazz, pode-se notar que eu citei acima apenas músicos de jazz. E os cantores? A obra esclarece que o jazz é uma música essencialmente instrumental e que cantar jazz é um exercício de improviso. Muita gente pensa que Frank Sinatra, Tony Bennett, Ella Fitzgerald, Billie Holiday ou Nat King Cole foram cantores exclusivamente de jazz, quando, na verdade, muitas das músicas gravadas por esses artistas são swing, baladas, músicas românticas... O próprio Sinatra, considerado pelos críticos o melhor cantor de jazz do século XX, não se intitulava um cantor desse gênero.

Outro grande equívoco é pensar que a bossa nova é uma mistura de jazz e samba. Foi a bossa nova que influenciou o jazz, dando ao gênero mais leveza e swing. Foi maravilhosa essa parceria! Podemos citar as gravações de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan de músicas brasileiras, bem como as de Stacey Kent e Diana Krall na atualidade, sem esquecer as parcerias memoráveis de Frank Sinatra e Tom Jobim, e de João Gilberto e Stan Getz - esta última rendeu um Grammy.

Por que o jazz não vingou no Brasil como deveria, ficando restrito a pequenos grupos? Segundo Pellegrini, na primeira metade do século passado o Brasil já tinha uma riqueza musical: samba, chorinho, xaxado, baião, marchinhas carnavalescas, forró... Ou seja, o país não precisava importar músicas. Para completar, nas décadas de 1930 e 1940, o Brasil vivia a chamada “Era Vargas”, quando o presidente promovia uma onda de nacionalismo, chegando a proibir o ensino de línguas estrangeiras nas escolas. Foi um período de xenofobia, que fechou ainda mais as portas para a música internacional.

Já em relação a Europa, a história foi outra. Hoje se ouve mais jazz nos países europeus do que nos Estados Unidos. Por quê? Excetuando Inglaterra, França, Itália e Espanha, os outros países praticamente só têm suas músicas folclóricas e importam as dos países citados. Ou seja, na maioria dos países europeus há um vácuo musical que possibilitou a entrada da música estadunidense - e foi assim que o jazz cruzou o Atlântico. Para completar, muitos músicos de jazz fizeram turnês e chegaram a morar na Europa; posso citar John Coltrane, Miles Davis, Stan Getz, Chet Baker, entre outros. Isso consolidou o jazz na Europa.

Para finalizar, falaremos dos festivais de jazz. Muitos fãs criticam o fato de neles terem outros ritmos musicais. Pellegrini, em sua obra, explica que os produtores precisam da renda dos ingressos e cita a prática de empresários que realizam dois festivais paralelos: um com estilos diversos, por conta da receita, e outro genuinamente de jazz.

Bem, o jazz é isso: fusão de ritmos, várias vertentes, e que reúne músicos e ouvintes de várias gerações. Venham ouvir o jazz!

 

Adriano Pinheiro

Professor de História

Publicado em “O Imparcial” em 31-10-25