O Mais Importante Disco da Música Brasileira
Ano passado, especialistas elegeram o disco “Clube da Esquina”, de 1972, como o mais importante disco da história da música popular brasileira. Esse trabalho reuniu artistas de peso como: Milton Nascimento, Toninho Horta, Wagner Tiso, Lô Borges, Beto Guedes e Márcio Borges. Antes de julgar o mérito do disco, cabe uma reflexão sobre o conceito de música popular. Trata-se da música de que o povo gosta, que o povo ouve, mas nos referimos ao “povão”! Artistas como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Adriana Calcanhoto entre outros, são rotulados erroneamente de artistas populares. Por que erroneamente? Porque se o leitor for a uma periferia dificilmente um morador acertará cantar uma música dessas celebridades. Cantores populares podemos citar: Waldick Soriano, Amado Batista, Bartô Galeno, Odair José e, na atualidade, o Safadão, Leo Santana e Anita. Agora é natural que todo artista queira se identificar com as massas, o próprio Milton Nascimento em uma de suas canções dizia que o artista tem que estar onde o povo está. Mas o povo que esteve e está com o Clube da esquina, em sua maioria é da classe média para cima.
Voltando ao “Clube da Esquina”, logo que saiu a notícia dessa eleição, uma dúvida pairou em nossas cabeças, ao longo da história da música brasileira, escrita por críticos, músicos e especialistas, sempre nos foi ensinado que o disco mais relevante foi, “Chega de Saudade”, de João Gilberto, lançado em 1959. Quando se afirma que algo é mais importante é uma afirmação de certo modo, vaga. Mais importante em que aspecto? Em que sentido? Vamos começar por ordem cronológica, ou seja, João Gilberto. O seu disco lançado em 1959 foi um divisor de águas na música brasileira, a batida que ele criou em seu violão chamada de bossa nova, nada mais é do que um samba desacelerado. Houve a inovação com os amplificadores, microfones posicionados no violão e na voz, as marcas desses microfones, tudo isso possibilitou que artistas que tinham vozes suaves pudessem cantar e gravar discos. Antes isso era um privilégio de quem possuía uma voz potente. Vide Francisco Alves, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Dorival Caymmi entre outros. Essa inovação impactou o trabalho da chamada MPB, ou seja, sem “Chega de Saudade”, não teríamos o “Clube da Esquina”. Poderíamos encerrar aqui a participação de João Gilberto se o Jazz não tivesse incorporado a batida da bossa nova, mas aí já é outra história. Voltemos à música brasileira.
O “Clube da Esquina” foi importante nos seguintes aspectos: sua qualidade sonora foi superior a tudo que já havia sido produzido anteriormente no Brasil. Estaria para nós como um Pink Floyd para os estrangeiros. Outro aspecto são as letras, o Brasil vivia a ditadura civil-militar, era o Governo Médici, os chamados Anos de Chumbo. As músicas trazem um conteúdo de protesto de forma sutil e direta.
Para finalizarmos, se levarmos em consideração a influência que o disco causou em futuras gerações, temos que nos render a “Chega de Saudade”, e se o critério for a qualidade sonora, a vitória é do “Clube da Esquina”.
Adriano Pinheiro – Professor de História
Júlio César Cutrim – Músico e professor de Inglês
Publicado no jornal “O Imparcial” em 14 – 02 – 2023
