O bicentenário de Dom Pedro II
No próximo dia 2 de dezembro, o imperador Dom Pedro II completaria 200 anos. O governante que mais tempo permaneceu no poder no Brasil é também uma das figuras que mais despertam fascínio entre os brasileiros, tanto por sua cultura quanto por suas ideias avançadas para a época em que reinou. Mas quem era o homem por trás do mito? Quais foram os acertos e falhas do seu reinado? Sua trajetória se confunde com a história do Brasil.
Dom Pedro II herdou o trono após a abdicação de seu pai, Dom Pedro I. Além das razões mencionadas nos livros didáticos, muitos historiadores apontam que Dom Pedro I acreditava que o filho seria mais respeitado do que ele, justamente por ser brasileiro de nascimento. Aliás, muitos afirmam que o povo só se sentiu verdadeiramente independente após a partida definitiva de Dom Pedro I para Portugal. Antes disso, pairava o medo de que o Brasil fosse recolonizado, já que o imperador era português.
Dom Pedro II se tornou um homem muito culto, que valorizava a ciência, apreciava as artes e era um poliglota. Houve todo um cuidado por parte dos tutores que ele teve aqui, visto que tinha cinco anos quando seu pai deixou o trono. Dom Pedro I, em suas cartas ao filho, enfatizava a importância dos estudos, já que ele mesmo não foi um aluno aplicado e teve sérios problemas por conta disso.
O período regencial foi turbulento, houve muitas rebeliões em nossa nação e havia, de certo modo, no imaginário coletivo, o sentimento de que aqueles regentes não eram nossos soberanos e não tinham o direito de nos governar. Isso levou à antecipação da maioridade de Dom Pedro II em 1840, sendo ele coroado em 1841.
Sobre o seu reinado, tivemos um desenvolvimento social e econômico. Foi construída a primeira estrada de ferro, linhas de telégrafo, a construção do canal Campos-Macaé, considerada por muitos autores a maior obra de engenharia do Brasil no século XIX, além da criação da Academia Imperial de Belas Artes e do apoio ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB). Houve também a abolição da escravidão de maneira lenta e gradual. Nesse ponto, vale lembrar que Dom Pedro II era contrário à escravidão, e os negros que trabalhavam para ele eram alforriados e recebiam salários.
O que muitos não sabem é que ele encaminhou o primeiro projeto de cotas para negros alforriados estudarem no Colégio Dom Pedro II. Como não foi aprovado, o imperador passou a pagar bolsas de estudo para esses negros. Contudo, a nossa abolição foi muito tardia, porque a aristocracia rural era a base de sustentação do Império, e Dom Pedro II temia que o Brasil entrasse em uma guerra civil, assim como ocorreu nos EUA.
Um fato que poucos conhecem é que havia os “escravos da nação”, como se fossem escravos do Estado. Esses, o imperador libertou em 1871. A abolição só ocorreu definitivamente em 1888, quando o Brasil tinha em torno de 7% de escravizados. E os fazendeiros ainda queriam indenizações, o que não receberam. A princesa Isabel foi contra essa medida, questionando o fato de os negros já terem dado muito lucro aos seus donos; ou seja, a indenização deveria ser dada aos negros e seus descendentes.
Muitos dizem que Dom Pedro II era avesso ao poder e preferia se dedicar aos estudos e às viagens, delegando suas funções ao presidente do Conselho de Estado. Porém, havia o Poder Moderador, e, quando o presidente do Conselho não conseguia aprovar um projeto, Dom Pedro II dissolvia o Parlamento e convocava novas eleições para que o presidente do Conselho de Estados pudesse aprovar o projeto.
Um fato histórico que pesou bastante para a queda da monarquia foi a Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870. O imperador chegou a travar um embate com o Conselho de Estado, que queria encerrar o conflito, mas Dom Padro II queria capturar o ditador paraguaio Solano López, que foi morto por um militar brasileiro, conhecido como “cabo Chico Diabo”. O exército saiu fortalecido com a vitória dessa guerra, e foi criado o Partido Republicano Paulista, com a permissão do imperador. Há historiadores que acreditam que Dom Pedro II entendia que o futuro do Brasil seria a República e queria apenas concluir o seu reinado. O fato de ele ser sucedido por uma mulher no trono também seria uma barreira muito forte a ser vencida em meio a uma sociedade patriarcal e machista.
A Proclamação da República foi feita por um marechal monarquista que queria apenas derrubar o gabinete do Visconde de Ouro Preto, Deodoro da Fonseca. Ele o derrubou e pretendia conversar com o imperador, que estava em Petrópolis, o que não ocorreu. Quando Deodoro soube que Dom Pedro II nomearia Silveira Martins para o lugar do Visconde de Ouro Preto, decidiu-se pela República, já que Silveira era um desafeto político de Deodoro; ambos haviam tido carreira política no Rio Grande do Sul.
O destino de Dom Pedro II foi melancólico. Os militares chegaram a cogitar o fuzilamento da família real; porém, a República foi um feito entre Rio e São Paulo, e Dom Pedro II ainda tinha seu carisma nas províncias brasileiras, o que poderia colocar o povo contra o novo regime. A família real embarcou, na calada da noite, em um navio para o exílio, justamente para evitar manifestações. Sua primeira estadia se deu em Portugal, onde seu sobrinho-neto, o rei Dom Carlos I, era o monarca.
O banimento de Dom Pedro II do Brasil se deu pelo fato de ele recusar a pensão oferecida pela República brasileira; isso deu a entender que ele não reconhecia o novo regime, razão pela qual permaneceria banido. Porém, em Portugal, seu sobrinho esperava que Dom Pedro II atacasse a República do Brasil, o que ele não o fez e, para completar, estabeleceu relações cordiais com os republicanos portugueses. Não houve mais clima para que ele permanecesse em Portugal e, então, deslocou-se para a França. Lá, ele era querido, ajudou o Instituto Pasteur e tinha uma boa relação com cientistas e intelectuais. Em 5 de dezembro de 1891, faleceu vítima de pneumonia, no quarto do hotel Bedford, em Paris. Seu funeral teve honras de chefe de Estado, o que provocou questionamentos do governo brasileiro.
Dom Pedro II criou instituições e plantou as bases de um país rico e diverso; por outro lado, o seu medo em arriscar e a subserviência aos grupos dominantes geraram um Brasil muito desigual e cheio de contrastes. Foi, sem dúvida, uma figura indelével em nossa história!
Adriano Pinheiro
Professor de História
Publicado em O Imparcial em 01-12-25
