O Papa que explodiu
O Papa em questão é Pio XII, um pontífice muito importante e polêmico na história da Igreja. Nascido em Roma, no ano de 1876, seu nome de batismo era Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli. Ele seguiu carreira sacerdotal até ser eleito Papa. Foi responsável pelas relações internacionais do Vaticano e representou a Santa Sé em diversas ocasiões públicas, nas quais esteve em contato direto com grandes líderes de Estado.
Em 1917, foi nomeado Núncio Apostólico na Baviera e arcebispo de Sardes. Núncio Apostólico, para quem não sabe, é um diplomata eclesiástico. Anotem essa palavra — diplomata — que será importante para compreender o pontificado de Pio XII. Pacelli foi nomeado cardeal em 1922 por Pio XI e, no ano seguinte, tornou-se Secretário de Estado. Em 1935, foi nomeado Cardeal Camerlengo, responsável pela administração do Vaticano quando o cargo de Papa está vago, até a eleição de um novo Sumo Pontífice.
A eleição de Pacelli no Conclave ocorreu em 1939, em substituição a Pio XI. Durante seu papado, destacam-se a proclamação do Dogma da Assunção da Virgem Maria, em 1950, que fomentou o culto mariano, e sua atuação durante a Segunda Guerra Mundial, o que gerou muitas polêmicas. Oficialmente, ele manteve uma posição de neutralidade, visando resguardar a segurança dos católicos nos países dominados pelo nazismo. Contudo, nos bastidores, ajudou a refugiar muitos judeus. Hitler chegou a ameaçar raptá-lo. O fato de, na década de 1950, Pio XII ter combatido o socialismo, colocou mais lenha na fogueira, e seus opositores passaram a apelidá-lo de “Papa de Hitler”. Porém, todos os seus esforços pela paz e pela proteção das vítimas do nazismo foram comprovados por relatos de judeus e por documentos do Vaticano que foram desarquivados recentemente. Sobre esse tema, sugiro aos leitores o livro: “Pio XII e os Judeus”, de Johan Ickx.
Vamos agora à explosão. Que explosão foi essa? Trata-se do corpo do Papa. Vejamos: Pio XII morreu em 1958, e até hoje os velórios dos papas são demorados para que o maior número de fiéis possa prestar suas homenagens. Pio XII faleceu no outono, período quente. Até 1914, os órgãos dos papas eram retirados para embalsamar o corpo. Pio X encerrou essa prática, e Pio XII deixou em testamento que não queria ter os seus órgãos extraídos depois de morto. O chefe da equipe médica do Vaticano, Riccardo Galeazzi-Lisi, usou o método de osmose aromática para preservar o corpo do Sumo Pontífice. Esse método consistia em “permitir ao corpo do papa absorver resinas voláteis e certos óleos e outras substâncias com ação desoxidante”, segundo noticiado pelo The New York Times. Esse método já havia sido usado por figuras ilustres como o imperador Carlos Magno.
Pois bem, Galeazzi utilizou ervas e óleos para preservar o corpo do Papa e o cobriu com celofane. Isso, somado ao calor intenso, começou a dar errado. A decomposição se deu de forma acelerada aos olhos de todos. Os gases formados no processo de putrefação fizeram com que o corpo, que era magro, inchasse. O cheiro no recinto era tão forte que os guardas precisavam ser substituídos a cada 15 minutos, pois começavam a passar mal. Por fim, no traslado do corpo no carro funerário do Vaticano, que seguia para a Basílica de São Pedro, pouco antes de chegar a Roma, os ocupantes do carro ouviram uma explosão que vinha do caixão — o corpo literalmente se despedaçou. O cadáver de Pio XII teve que ser embalsamado às pressas e de forma improvisada. O velório seguiu o rito e durou nove dias, com o cadáver inchado, até ser sepultado.
Riccardo Galeazzi-Lisi foi responsabilizado pelo ocorrido com o corpo do Papa Pio XII. Vale mencionar que ele também vendeu fotos do Papa recebendo oxigênio para jornais e revistas. Uma comissão de cardeais o expulsou do Vaticano. Essa foi a história do Papa Pio XII, um dos pontífices que mais marcaram a história do mundo contemporâneo.
Adriano Pinheiro
Professor de História
Publicado em O Imparcial em 9-5-25
