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Mulher: Uma Abordagem Histórica

Neste artigo, trataremos da trajetória feminina ao longo dos tempos e tentaremos fazer uma análise crítica que possa ter uma contribuição social. As sociedades ao longo da história foram sempre patriarcais? Não. Já tivemos registros de nações matriarcais. Podemos citar uma sociedade ainda na pré-história, no período neolítico, onde é a Turquia hoje. Na atualidade, ainda existem algumas sociedades desse tipo: Minangkabau, na Indonésia. Para se ter uma ideia, lá todas as propriedades pertencem às mulheres e são passadas de mães para filhas. Porém, as sociedades matriarcais são exceções ao longo da História. O que se desenrolou por muitos séculos, foi a subjugação do sexo feminino pelo masculino.

Como explicar o patriarcalismo? A força física do homem, que é maior do que a da mulher certamente é um dos motivos. Nas comunidades primitivas havia divisões de tarefas, segundo o gênero. Os homens iam caçar, guerrear; as mulheres cozinhavam, cuidavam das crianças... Cabe, porém, a seguinte indagação: O cristianismo teria reforçado o patriarcalismo? Há um trecho na Bíblia em Efésios 5:23, que diz que o homem é o “cabeça” da esposa, assim como o Cristo é o “cabeça” da igreja. Poderíamos, então, interpretar esse trecho da seguinte forma: na época em que o texto foi escrito, somente aos homens era dada a instrução espiritual e intelectual, desta forma, supõe-se que eles eram os mais aptos a conduzirem seus lares, ou seja, a submissão era ao conhecimento e não ao gênero. Hoje se um homem for consultar uma psicóloga estará se submetendo aos conhecimentos dela, pois ela é autoridade no assunto. Essa é a lógica!

Voltando à questão da subjugação das mulheres pelos homens, podemos destacar desde a antiguidade clássica, quando nasceu a democracia na Grécia, o critério de cidadania plena, que excluía o público feminino. Na época do Cristo, as leis determinavam que as mulheres adúlteras deveriam ser apedrejadas, mas os homens não. A pergunta que fica é: alguém comete adultério sozinho? Aí o Cristo deu aquela belíssima lição que todos nós conhecemos.

Em algumas regiões da Ásia e da África, há 2000 anos, havia o ritual de retirada do clítoris das mulheres. Acreditava-se que essa prática ajudava a mantê-las virgens, já que elas não teriam prazer sexual. O Alcorão aprova esse ato. Colonizadores cristãos do Quênia criaram leis proibindo essa cirurgia em 1930, porém em muitas tribos a prática persiste.

No Brasil colonial, havia casas para guardar mulheres, administradas por freiras. Se o marido fosse viajar, poderia guardar sua esposa lá para que ela ficasse segura. Mas havia outra finalidade para essas casas: quando os maridos não queriam mais as suas esposas e desejavam desposar outras mulheres, eles inventavam que suas parceiras tinham enlouquecido e as trancafiavam lá.

Com a Revolução Industrial no séc. XVIII, as operárias ganhavam bem menos que os homens exercendo a mesma função. Esse tipo de desigualdade persiste até hoje, apesar de as mulheres terem mais tempo de estudo que os homens. Com a 2ª Guerra Mundial, as mulheres começaram a ocupar funções no mercado de trabalho antes exercidas só por homens, isso devido ao fato de eles estarem em combate. Depois muitos morreram, ou voltaram mutilados.

Não podemos deixar de citar o feminismo no processo de conquistas de direitos femininos. Esse movimento surgiu na França após a Revolução, fortaleceu-se na Inglaterra no séc. XIX e chegou aos EUA no séc. XX. O objetivo desse movimento é construir uma sociedade com igualdade de condições entre os dois gêneros.

Porém, toda história se faz com pessoas. Citarei algumas mulheres que ajudaram a mudar a situação feminina no mundo. Joana d’Arc foi uma camponesa analfabeta que viveu no século XV e morreu aos 19 anos, era muito sábia e ajudou de forma relevante a França na Guerra dos 100 anos e hoje é padroeira da França. Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista do Brasil, viveu entre 1822 e 1917, era negra e teve grande contribuição na difusão de ideias abolicionistas. Marie Curie ( 1867 – 1934 ) foi uma cientista polonesa que descobriu a radioatividade e novos elementos químicos como o polônio e o rádio. Foi a primeira pessoa a ganhar duas vezes o prêmio Nobel, um em física outro em química. Detalhe: ela trabalhava junto com seu marido, o senhor Curie, ele recebeu uma informação de bastidores, que só ele seria premiado com o Nobel. Ele “bateu o pé” e disse que não aceitaria caso sua esposa também não fosse contemplada.

Chiquinha Gonzaga foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, também autora da primeira marcha carnavalesca carioca “O abre alas” de 1899. E para finalizar, Irmã Dulce ( 1914 – 1992 ) Nascida em Salvador, entrou para um convento e realizou um grande trabalho assistencial em na sua terra, acolhia idosos, enfermos, crianças. Fundou albergues e até hospitais. Tinha trânsito com políticos e empresários, mas nunca pediu nada para si. Dulce foi canonizada e em 2019 tonou-se a primeira santa brasileira.

Se hoje as mulheres estão em uma situação melhor do que no passado, foi fruto de muita luta, suor, lágrimas e sangue. Foi um esforço coletivo das mulheres mais empoderadas às mais simples. Todas tiveram sua contribuição, houve homens também que as ajudaram nesse processo, eles têm o dever de ajudá-las, pois todos viemos ao mundo através das mulheres. O resgate histórico do papel feminino na humanidade não é uma questão de revanchismo, mas de justiça. Homens e mulheres não devem competir, mas sim se complementarem e viverem em harmonia!

 

Adriano Pinheiro – professor de História

Publicado em “O Imparcial” em 07-03-2023

 

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